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01.06.2014
Domingo VII da Páscoa (Ascensão)   -   Ano A

A Ascensão não é uma ausência, mas uma plenitude.

O Senhor não abandona os seus na terra. Ele é, pela Ressurreição, o “Senhor” que domina o Céu e a terra. E continua presente e activo no meio de nós pelo seu Espírito que está na Igreja: na palavra de Deus, na acção dos Sacramentos, no amor da comunidade dos crentes vindos de todas as nações e em cada baptizado. E para que a sua presença possa chegar a todos os homens, a todos o Senhor envia agora os seus Apóstolos.

Uma comunidade incapaz de lidar com o desacordo
está mal preparada para o futuro

Há pouco falei-vos da tolerância e de como é necessário conhecer as coisas para ser tolerantes a seu respeito. Só os ignorantes são intolerantes. Porque não são capazes de sair do limite do seu conhecimento.

Escutávamos, há dois domingos, da primeira carta de S. Pedro isso mesmo: «(estai) sempre prontos a responder, a quem quer que seja, sobre a razão da vossa esperança. Mas sempre com brandura e respeito…». Um cristão, um baptizado, um crismado só o é de verdade se souber o que é de verdade, se os sacramentos nele frutificam na prática, na vida.

Li, um dia destes, este texto de Timothy Radcliffe, que aqui vos transcrevo porque o acho de uma sabedoria interpelativa:

«Os primeiros discípulos falaram com ousadia, assim nos diz Lucas (Atos 9, 29; 14,3). Esta é a parrhesia que Simon Tugwell define como «ser capaz de dizer tudo e qualquer coisa». As nossas Igrejas estão cheias de palavras: inumeráveis documentos, escritos de orientação, declarações episcopais, dissertações teológicas, sermões, artigos eruditos, crónicas jornalísticas. Mas nem sempre existe um discurso aberto em que digamos aquilo em que mais profundamente cremos, partilhemos as nossas dúvidas e receios e abramos os nossos ouvidos a visões diferentes das nossas. Santa Catarina de Sena deu aos cardeais que estavam com o Papa exilados em Avinhão um bom raspanete: «Deixai de estar calados. Gritai com cem mil vozes. Vejo que o mundo é destruído pelo silêncio».

A Igreja deveria educar os crismados a falar bem, abertamente e com confiança. Não se trata de dizer a primeira coisa que nos venha à cabeça. Todo o cristão confirmado deveria receber um treino teológico básico, um conhecimento das Escrituras e dos ensinamentos da Igreja. A Confirmação foi, muitas vezes, associada à idade da razão e precisamos de ser ensinados a pensar bem e solidamente acerca da nossa fé, a crescer numa confiança que, embora vá além do que conhecemos pela razão, nunca é irracional.

O teólogo americano Robert Barron disse que, ao visitar a sobrinha que se preparava para a universidade, ficou impressio­nado com os volumosos tomos que ela estudava sobre Homero e Shakespeare, e com os livros sobre Física e Química avançada; mas quando lhe perguntou pelos seus livros de Teologia, ela mostrou-lhe uma publicação com ilustrações, apropriada para uma criança de dez anos. Ele, então, saiu dali a correr e foi comprar-lhe um exemplar da Summa contra Gentiles de Tomás de Aquino, em latim! (…)

Precisamos de ser ensinados no modo como defender a nossa fé de uma forma racional, inteligente, como adultos. É assim que nos abrimos aos dons do Espírito, da sabedoria, da ciência e da inteligência. Consta que quando o teólogo dominicano Herbert McCabe tinha seis anos, a sua mãe o repreendeu por uma malandrice que ele fizera. Disse ela: «Agora foste um menino muito ruim. O que fizeste foi tão mau que até poderia ser um pecado mortal.» E, supostamente, o jovem Herbert terá replicado: «Mãe, isso é impossível. Não posso cometer um pecado mortal até chegar à idade da razão. Segundo a Igreja, isso ainda não acontece aos seis anos. Portanto, o teu raciocínio é errado.» (…)

Se a Igreja há de tornar-se uma comunidade de adultos e crescidos, então não devemos recear demasiado que as coisas fiquem fora de controlo. Quando as pessoas tentam encontrar a sua própria voz e partilhar alguma nova ideia, é muito provável que elas, a princípio, não encontrem as melhores palavras e façam até afirmações claramente erradas ou, inclusive, contrárias à nossa fé. Mas, mais do que premir o botão do pânico, precisamos de descobrir, com paciência, a nova ideia que está a tentar vir à luz. O Espírito Santo foi derramado na Igreja, no Pentecostes, e por isso ela não ruirá só porque algumas pessoas se extraviaram um pouco na sua busca da verdade. O Judaísmo ensina-nos que devemos prestar atenção à visão da minoria, mesmo se a rejeitarmos, porque talvez, algum dia, a sua sabedoria seja necessária. Uma comunidade que é incapaz de lidar com o desacordo e impõe a uniformidade estará mal preparada para o futuro.»

O Pentecostes é isso mesmo: a riqueza da variedade na unidade! Tal como num jardim é a variedade de flores e plantas que o tornam rico e agradável, assim também a Igreja enriquecer-se-á e será mais agradável e mais desejada se a ‘santa liberdade dos filhos de Deus’ for visível e experienciada.

Por isso precisamos de ser cristãos cultos, adultos, para podermos e sabermos decidir seguindo e segundo o Espírito. Quantas vezes os maus entendidos e as divisões são a consequência direta da ignorância e, consequentemente, da intolerância.

É claro que isto não é sinónimo, como já vos tive ocasião de dizer, do’ vale tudo’ ou do ‘salve-se quem puder’. Não. É antes ocasião de, seguros e de pé, conseguirmos ser como que estacas e segurança nas tormentas e tempestades para os outros.

Oração de Edith Stein sobre o Espírito Santo

Num clima místico, poucos meses antes da sua deportação para Auschwitz, nasce uma das mais belas orações de Edith Stein. Um hino ao Espírito Santo. Foi o seu “último Pentecostes”.

I
«Quem és tu, doce luz que me preenche e ilumina a obscuridade do meu coração? Conduzes-me como a mão de uma mãe e se me soltasses, não saberia nem dar mais um passo. És o espaço que envolve todo meu ser e o encerra em si. Se fosse abandonado por ti cairia no abismo do nada, de onde tu o elevas ao Ser. Tu, mais próximo de mim que eu mesmo e mais íntimo que minha intimidade, e, sem dúvida, permaneces inalcançável e incompreensível, e que faz brotar todo nome:
Espírito Santo — Amor eterno!

II
Não és Tu o doce maná que do coração do Filho flui para o meu, alimento dos anjos e dos bem aventurados? Aquele que da morte à vida se elevou, também a mim despertou a uma nova vida do sono da morte. E nova vida me doa dia após dia. E um dia me cumulará de plenitude. Vida de minha Vida. Sim, Tu mesmo,
Espírito Santo, – Vida Eterna!

III
Tu és o raio que cai do Trono do Juiz eterno e irrompe na noite da alma, que nunca se conheceu a si mesma? Misericordioso e impassível penetras nas profundezas escondidas. Se ela se assusta ao ver-se a si mesma, concedes lugar ao santo temor, princípio de toda sabedoria que vem do alto, e no alto com firmeza nos unes à tua obra, que nos faz novos,
Espírito Santo — Raio penetrante!

IV
Tu és a plenitude do Espírito e da força com a qual o Cordeiro rompe o selo do segredo eterno de Deus? Impulsionados por ti os mensageiros do Juiz cavalgam pelo mundo e com espada afiada separam o reino da luz do reino da noite. Então surgirá um novo céu e uma nova terra, e tudo retorna ao seu justo lugar graças ao teu alento:
Espírito Santo — Força triunfante!

V
Tu és o mestre construtor da catedral eterna que se eleva da terra aos céus? Por ti vivificadas as colunas se elevam para o alto e permanecem imóveis e firmes. Marcadas com o nome eterno de Deus se elevam para a luz sustentando a cúpula, que cobre, qual coroa, a santa catedral, tua obra transformadora do mundo,
Espírito Santo — Mão criadora!

VI
Tu és Quem criou o claro espelho, próximo ao trono do Altíssimo, como um mar de cristal onde a divindade se contempla amando? Tu te inclinas sobre a obra mais bela da criação, e resplandecente te ilumina com teu mesmo esplendor. E a pura beleza de todos os seres, unida à amorosa figura da Virgem, tua esposa sem mancha:
Espírito Santo — Criador do Universo!

VII
Tu és o doce canto do amor e do santo recato, que eternamente ressoa diante do trono da Trindade, e desposa consigo os sons puros de todos os seres? A harmonia que une os membros com a Cabeça, onde cada um encontra feliz o sentido secreto de seu ser, e jubilante irradia, livremente desprendido em teu fluir:
Espírito Santo — Júbilo eterno!