08.03.2015 Domingo III da Quaresma - Ano BAlguns artistas representaram de forma particularmente violenta esta cena do Evangelho. Mas nunca é suficientemente violenta essa representação tendo em conta o sentido deste gesto de Jesus. Neste gesto não está apenas a expulsão do que é externo, ritual, costumeiro… está verdadeiramente a expulsão e destruição do que é falso, do que é lixo, do que é limitativo do nosso ser como pessoas e como cristãos. É do nosso interior que devemos expulsar o que não convém neste templo que sou eu, que és tu. E isso custa verdadeiramente. Isso é violento. Mas não há outro remédio. E é mortal se não o fizermos.
A Lei de Deus: uma manifestação de amorO “decálogo” abarca os dois vectores fundamentais da existência humana: a relação do homem com Deus e a relação que cada homem estabelece com o seu próximo. Os primeiros quatro mandamentos dizem respeito à relação que Israel deve estabelecer com Deus. Dois, sobretudo, são de uma tremenda originalidade (o mandamento que obriga Israel a não ter outro Deus, outro Senhor, outra referência; e o mandamento que proíbe construir imagens de Deus), pois não encontram paralelo em nenhuma das religiões antigas que conhecemos. Os outros seis mandamentos dizem respeito às relações comunitárias. Procuram inculcar o respeito absoluto pelo próximo – a sua vida, os seus direitos na comunidade, os seus bens. São “a magna carta da liberdade, da justiça, do respeito pela pessoa e pela sua dignidade”. Os mandamentos que dizem respeito à relação do homem com Deus sublinham a centralidade que Deus deve assumir no coração e na vida do seu Povo. Na vida de todos os dias somos, com frequência, seduzidos por outros “deuses” – o dinheiro, o poder, os afectos humanos, a realização profissional, o reconhecimento social, os interesses egoístas, as ideologias, os valores da moda – que se tornam o objectivo supremo, no valor último que condiciona os nossos comportamentos, as nossas atitudes e as nossas opções. Com frequência, prescindimos de Deus e instalamo-nos num esquema de orgulho e de auto-suficiência que coloca Deus e as suas propostas fora da nossa vida. Os mandamentos que dizem respeito à nossa relação com os irmãos convidam-nos a despir esses comportamentos que geram violência, egoísmo, agressividade, cobiça, intolerância, escravidão, indiferença face às necessidades dos outros. Tudo aquilo que atenta contra a vida, a dignidade, os direitos dos nossos irmãos, é algo que gera morte, sofrimento, escravidão, para nós e para todos os que nos rodeiam e é algo que contribui para subverter os projectos de vida e de felicidade que Deus tem para nós e para o mundo. O que está aqui em jogo não é o respeitar regras “religiosamente correctas”, o evitar que Deus tenha razões de queixa contra nós, ou o fugir aos castigos divinos; mas é, antes de mais, o construir a nossa própria felicidade. É preciso aprendermos a não ver os “mandamentos” de Deus como propostas reaccionárias, descabidas e ultrapassadas, inventados por uma moral obsoleta e antiquada, que apenas servem para limitar a nossa liberdade ou para impedir a nossa autonomia; mas é preciso ver os “mandamentos” como “sinais de trânsito” com os quais Deus, no seu amor e na sua preocupação com a nossa realização plena, nos ajuda a percorrer os caminhos da liberdade e da vida verdadeira. A lei do Senhor é perfeita, ela reconforta a alma; as ordens do Senhor são firmes, dão sabedoria aos simples. Os preceitos do Senhor são rectos e alegram o coração; os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos. O temor do senhor é puro e permanece para sempre; os juízos do Senhor são verdadeiros, todos eles são rectos. São mais preciosos que o ouro, o ouro mais fino; são mais doces que o mel, o puro mel dos favos. Salmo 18 (19) Tenhamos sempre presente, na nossa vida estas palavras de S. Paulo: «o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens». Sobretudo quando nos parece que somos os maiores, que a nossa vida é um sucesso e vivemos relativamente sem muitos problemas de maior. Aí corremos o risco de começar a pensar que não precisamos nem de Deus nem de mais ninguém. É a partir desse momento que não passamos de uns miseráveis. É necessária muita sabedoria para descobrir isso a tempo… e não só apenas quando caímos, de facto na desgraça. Com Deus e com os outros, com os irmãos, jamais conheceremos a desgraça pois ela – a graça – é-nos dada gratuitamente (de graça) por esse Deus que é Pai de todos e a todos quer ver felizes. Por isso, Paulo se esforça por demonstrar aos coríntios que a experiência cristã não é a busca de uma filosofia coerente, brilhante, elegante, que conduza à sabedoria, entendida à maneira dos gregos. Quem procura na mensagem cristã um sistema lógico, coerente, inquestionável à luz da lógica humana, é porque não percebeu nada do essencial da mensagem cristã, da “loucura da cruz”. A mensagem cristã não é uma filisofia mas uma Pessoa: Jesus Cristo. E é no encontro com Ele e, n’Ele, com os irmãos, que somos de facto sábios, felizes. Estamos na Quaresma e vivemos mais intensamente o Mistério da Salvação operado na morte e ressurreição de Jesus. Aceitamos com fé e reverência profunda, agradecemos este acto de amor de Deus, ou filosofamos e colocamo-nos como proponentes de caminhos melhores e com mais sentido? Reflictamos, rezemos este mistério, de tal modo que o amemos tão profundamente quanto o amor que levou Deus a realizá-lo por nós. A essência da mensagem cristã está na “loucura da cruz” – isto é, na lógica ilógica de um Deus que veio ao encontro da humanidade, que fez da sua vida um dom de amor e que aceitou uma morte maldita para ensinar aos homens que a verdadeira vida é aquela que se coloca integralmente ao serviço dos irmãos, até à morte. No entanto, foi precisamente dessa forma que Deus apresentou aos homens o seu projecto de salvação e de vida definitiva. Na cruz de Jesus manifestou-se, de forma plena, o poder salvador de Deus. Decididamente, considera Paulo, a lógica de Deus não é exactamente igual à lógica dos homens. O caminho cristão não é uma busca de sabedoria humana, mas uma adesão a Cristo crucificado – o Cristo do amor e do dom da vida. Nele manifesta-se de forma humanamente desconcertante, mas plena e definitiva, a força salvadora de Deus. É pecado mortal abandonar os pais“É feio ver os idosos descartados, é algo feio, é pecado”, afirmou o Papa Francisco, quarta feira, na Praça de São Pedro. Francisco recordou que quando era arcebispo de Buenos Aires costumava visitar lares de idosos, onde perguntava às pessoas se os filhos os acompanhavam. Nesse contexto, aludiu a um caso particular em que a última visita dos filhos tinha acontecido no Natal, quando se estava já em agosto. “Oitos meses sem ser visitado pelos filhos! Oito meses abandonado! A isto chama-se pecado mortal. Entendido?”, alertou. Segundo o Papa, com o progresso da medicina foi possível “prolongar” a vida, mas a sociedade não soube “alargar-se” para a acolher. “A Igreja não pode nem quer conformar-se com uma mentalidade de impaciência e muito menos de indiferença e de desprezo em relação à velhice”, sustentou. Francisco apelou, neste contexto, à promoção de uma “cultura de acompanhamento dos idosos”, contrariando uma “sociedade programada sobre a eficiência” e uma “cultura do lucro” que vê nos mais velhos “um peso”. Para o Papa, o respeito pela sabedoria é uma marca que define a qualidade de uma “civilização” e a vacina contra um “vírus de morte” que considera descartável quem não produz ou consome. “Há algo de vil nesta habituação à cultura do descarte”, criticou. Francisco desafiou as comunidades católicas a “despertar o sentimento coletivo de gratidão, apreço, hospitalidade, que faça sentir ao idoso que este é parte ativa da sua comunidade”. “Uma sociedade sem proximidade, onde a gratuidade e o afeto desinteressado vão desaparecendo – mesmo para com os de fora da família –, é uma sociedade perversa. A Igreja, fiel à Palavra de Deus, não pode tolerar tais degenerações”, assinalou. Os alertas do Papa alargaram-se ao interior da Igreja Católica: “Uma comunidade cristã na qual a proximidade e a gratuidade deixassem de ser consideradas indispensáveis, perderia com elas a sua alma”. “Onde não são honrados os idosos, não há futuro para os jovens”, concluiu. O verdadeiro templo é Jesus Cristo. Mas também há um segundo templo que tem de ser respeitado: a pessoa humana. Não podemos cair na tentação de converter Deus e a pessoa humana em espaço de comércio. São lugares sagrados. Anjo da guarda“Perante a tentação, invoca o teu anjo. Ele está mais desejoso de te ajudar do que tu de ser ajudado! Ignora o diabo e não tenhas medo dele: Ele treme e foge à vista do teu anjo da guarda.” S. João Bosco (200 Aniv. do nascimento)
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